Endurance Challenge Argentina 2013 – 50km

Bariloche – Cerro Catedral

Não podia dar outra, mesmo com a mudança de percurso decidida no dia anterior pelo mal tempo da semana, a prova foi dura e espetacular.

Percebi a variedade de trilhas no dia da prova. O traçado visto do mapa havia sido todo modificado, a prova chegaria aos 2100 metros, mas a chuva e neve dos dias anteriores fizeram os organizadores optarem por não subir tão alto pela segurança dos atletas. O dia da corrida, ao contrário da semana toda, estava com temperatura boa para correr e céu com poucas nuvens. Dividi um táxi com outros 2 corredores saindo do centro de Bariloche até o Cerro Catedral, local da largada, já estava pronto, só faltava deixar a roupa no guarda volume e colocar água na mochila, tudo isso dentro de um pequeno shopping na pequena vila e que no inverno é uma estação de esqui, as 7:50 faltando 10 minutos para a largada, queria fazer um aquecimento e gravar algumas imagens, nesse momento a câmera indicava “sem bateria” e desligava sozinha, a frustração acabou comigo naquela hora, tentei algumas alternativas e nada funcionou, resolvi voltar ao guarda volume e deixar a câmera, isso me custou parte do aquecimento e ter que largar atrás dos 500 corredores que se agrupavam no funil para a distância de 50km.

Logo de cara uma parede, começamos bem devagar e a sorte é que era por uma estrada larga de terra e pude ultrapassar facilmente os que não corriam no mesmo ritmo que eu. Ainda tomado pela frustração de não poder carregar a câmera para registrar imagens lindas que estavam por vir, comecei a me reprogramar para curtir a prova, e não me faltaram bons motivos.

Logo nos primeiros kms já me sentia renovado e resolvi fazer dessa corrida minha prova forte de 2013, minha despedida de solteiro, já que uma semana depois me casaria, e ao mesmo tempo, cravar essa corrida na memória, já que não tinha mais a responsa nem desculpa de carregar a câmera para fazer boas imagens parando ou reduzindo o ritmo, resolvi ir com tudo, eram respeitosos 50km com altimetria em constante variação, mas havia adquirido um bom volume durante o ano todo e podia me dar ao luxo de forçar.

Além das ultrapassagens do início, a partir do km 10 comecei a alcançar pessoas que estavam além do próprio ritmo, o efeito manada que acontece em qualquer prova. Os pontos de hidratação estavam distantes uns dos outros e por isso comecei com a mochila com quase 1litro de água e mais uma caramanhola com um pouco de isotônico, no km 17 havia um ponto de abastecimento enorme, acredito que dentro da recepção de um clube, com comidas e bebidas, desde arroz até café. Fiquei alguns minutos e a prova se desenrolava rapidamente, estava muito bem. Quando não estava no alto de uma montanha com a vista incrível, estava perto do Lago Gutierrez com água super cristalina e casas de veraneio enormes com jardim e sem muros ou grades.

Entre montanhas, muito sobe e desce e visuais maravilhosos reparei também que depois de 30km continuava a ultrapassar corredores, e isso era ótimo, sabia que havia começado forte, mas não a ponto de extrapolar, e ainda continuava bem.

Dentro do circuito Endurance Challenge, que acontece em vários países, inclusive no Brasil, essa etapa foi a que teve maior número de atletas, atingiu o limite de 2000 nas 4 distâncias, o que para uma prova de montanha é realmente muita gente, com isso também levamos muito lixo para as trilhas o que foi impossível não notar. O contraste da beleza da natureza com o lixo que encontrava no caminho era o ponto fraco do evento.

Segui firme, minhas batatas com sal e queijo ralado davam energia sem incomodar o estômago, com 43km nas pernas cheguei no mesmo ponto de apoio que passara quando estava no km 17, tomei café, isotônico e água, comi um pouco de doce de membrillo e toda essa mistureba me fez correr bem mais devagar a partir dai. Via outros corredores também no mesmo ritmo que eu e imaginava que não estava tao mal, a partir do km 47 comecei a passar por alguns córregos de água de degelo que descia a montanha, fiz deles um ponto de hidratacao, e chegava a não sentir os pés de tão gelada, e isso que eram apenas alguns passos dentro da água.

Completei os 50km em 6h23 e na 59ª colocação o que me deixou ainda mais contente. Para mostrar, só tenho algumas fotos que a organização mandou e a medalha, mas na memória tenho muito mais e no coração todo o orgulho.

Em 2014 a etapa argentina do Endurance Challenge acontece em San Martin de Los Andes, em abril, ainda não conheço a cidade, mas é na mesma região e já ouvi que é tao ou mais linda que Bariloche.

Enzo Amato

Endurance Challenge Argentina

O que mais me atrai no circuito Endurance Challenge, que nasceu nos EUA, mas já invadiu a América do Sul, é o foco de curtir seu hobby na natureza e ter compromisso com o meio ambiente, ou seja, não é só por correr. Desde o início a The North Face é a patrocinadora e a frase “nunca deixe de explorar” já diz tudo e tem a cara da prova.

Já participei de etapas aqui no Brasil, em Ilhabela, e no Chile, em Santiago, agora chegou a vez da Argentina, mais precisamente no Cerro Catedral em Bariloche dia 09/11/2013. O circuito contempla os iniciantes do trail running com 10 e 21km e os mais avançados com 50 e 80km, sempre largando em diferentes horários.

Vou mais uma vez para 50km neste ano, e bastante animado. Poder observar as montanhas lá do alto, e correndo, é um dos prazeres das corridas em trilha.

Ainda dá tempo de se inscrever e para chegar até lá basta fazer conexão em Buenos Aires, pegar outro voo até Bariloche e se hospedar por lá mesmo. O Cerro Catedral fica a 19km com ônibus público a cada meia hora ou táxi.

A etapa de 2014 já tem local e data, San Martín de los Andes 23/03.

Enzo Amato

UTMB a rainha das ultras

A prova mais famosa e badalada das corridas de montanha rolou semana passada na Europa, a Ultra-Trail du Mont-Blanc (UTMB), são 4 ultra eventos diferentes que, para poder participar, exigem currículo prévio através de pontos conquistados em outras ultra provas.
A cereja do bolo é a corrida de 168km que dá a volta no maciço do Mont-Blanc, e para poder participar é preciso acumular 7 pontos em até 3 provas, no período de 2 anos, o que fatalmente te colocará em ao menos 2 provas de 100km com muito desnível acumulado.
Algumas provas no Brasil somam pontos para a UTMB, para isso elas precisam ter mais de 65km e muito sobe e desce. Nenhum triathlon ou corrida plana é válida na contagem de pontos que são somados da seguinte forma:
Distância da corrida em km + desnível acumulado / por 100. O resultado da divisão se soma com o total de kms.
  • 1 ponto para um esforço considerado entre 65 y 89,
  • 2 pontos para um esforço entre 90 y 129,
  • 3 pontos para um esforço entre 130 y 179,
  • 4 pontos mais além.

Veja o exemplo de algumas corridas na América do Sul:

Endurance Challenge Argentina: 80km c/ D+4209m. (122 = 2 pontos)

Patagonia Run: 100km c/ D+ 4443m. (144 = 3 pontos)

Na semana da UTMB também acontece a CCC, prova de 101km que sai de Courmayeur, na Itália passa por Champex na Suiça e chega em Chamonix na França, sede do evento. Para participar dessa é preciso “apenas” de 2 pontos conquistados em provas anteriores.

Os primeiros colocados completam a CCC em aproximadamente 11h30 tendo até 26h para fazê-lo, e a UTMB em 20h30 tendo até 46h de limite. São provas muito longas e exigentes que não admitem iniciantes.

Dos 1900 que largaram para os 101km da CCC, 1158 homens e 162 mulheres terminaram, e dos 2500 que encararam a linha de largada da UTMB, 1545 homens e 140 mulheres concluíram. Esses são os limites de inscrições em cada prova, que normalmente faz sorteio para as vagas.

Tenho planos de um dia encarar os 101km da CCC, mas nem me passa pela cabeça os 168km da UTMB. Terei que esperar alguns anos para ver se a vontade aparece.

Enzo Amato.

K42 Bombinhas 2013, pensando em 2014.

Comprovei que é a mais bela e desafiadora maratona no Brasil. Temperatura amena, muitas subidas, descidas, lama, mata atlântica, praias, o visual da natureza exuberante e muita gente bonita, confirmam a fama.

Já li vários textos sobre a K42, por isso não vou fazer mais um, prefiro deixar orientações para os que farão ano que vem.

Aprendi que a K42 se corre com estratégia e cabeça no lugar. Numa prova curta podemos até ir a toda velocidade, mas não aqui. A variação de inclinação e percurso é muito grande e constante, e sendo a prova desafiadora como é, temos que fazer o possível para o corpo não sentir os extremos e correr da forma mais equilibrada / regular possível.

Como?

Batimentos controlados e percepção de esforço sempre igual seja qual for o terreno, ou seja, devagar nas subidas, moderado no plano e rápido nas descidas, caso não comprometa a segurança, no caso da K42, devagar nas descidas também. O batimento cardíaco é um bom parâmetro ao invés de se preocupar com ritmo por km.

Careta assustadora como o degrau.

Nas trilhas o mais fácil é subir, se estiver cansado vai ter que subir devagar e pronto, mas as descidas castigam muito mais, por isso procure flexionar um pouco os joelhos nas descidas mais ingrimes, isso dá mais estabilidade, mas não significa 100% dela. Não dê grandes saltos ou passadas largas nas descidas, isso vai te cansar mais, além de ser perigoso. Recomendo os tênis de trilha, mas ainda é comum ver pessoas com os tênis convencionais. Todos completamos, mas talvez eu tenha escorregado um pouco menos.

Apesar dos vários postos de hidratação acabei sentindo sede em alguns trechos e ter levado uma mochila de hidratação ou um cinto, como sugeriram os organizadores, teria ajudado. Apesar da forte recomendação de jogar o lixo no lixo e ter cestos logo após os postos, vi muito rastro de corredor porco nas trilhas, e já acho mais conveniente as corridas em trilha não entregarem copos d’água pelo bem do local que estamos usando para correr. Pagar inscrição não dá direito a descartar lixo em qualquer lugar.

Não havia mata fechada ou single tracks com risco de arranhar as pernas, por isso usar calça só resolveria se estivesse frio mesmo. Fui de short e camiseta regata.

Para proteger os pés usei esparadrapo nas áreas de maior atrito, vaselina nas pontas dos dedos e polvilho granado para manter os pés secos por um pouco mais de tempo. 2 pares de meia, a 1ª de poliamida, a outra mais grossa. Meus pés ficam mais confortáveis, porém ao entrar na água ficam mais pesados. Tomar banho antes da largada vai deixar seus pés mais sensíveis e com alto risco de causar bolhas. Banho no máximo na noite anterior.

A prova começou com garoa e mesmo assim passei protetor solar, em provas longas o clima pode mudar durante a prova e em Bombinhas foi exatamente o que aconteceu. Um boné sempre ajuda caso um galho apareça enquanto você olha pro chão. Apesar de eu não ter usado e não ter passado por lugares com vegetação tão fechada.

Os primeiros colocados levam cerca de 40% mais tempo para concluir a K42 se comparado a uma prova no asfalto, para os amadores percentualmente o valor é menor, mas pode contar algumas horas a mais da sua melhor corrida no asfalto.

No vídeo fica mais fácil de ver como é a prova, a paisagem e a fama que a K42 tem. Levei 5h13 e podia ter sido muito mais porque o visual é hipnotizante e dá vontade de parar e respirar fundo antes de continuar. Feliz por ter conhecido mais um canto do meu lindo país. Espero você lá ano que vem!

Se você fez a prova e quer deixar sua contribuição para os que farão ano que vem, será muito bem vinda.

Enzo Amato.