Ironman Ironmântico

Por Leonardo Coriteac

Fiz meu primeiro Ironman em 2012 em 12horas e 19 minutos. Fiz a prova de 2012 muito tranquilamente, curtindo todos os momentos, pois eu acreditava que nunca mais eu conseguiria fazer um Ironman lembrando de tantos detalhes da prova pois, naturalmente, meu próximo Iron seria dedicado à conhecer meu limite físico para a prova, ou seja, abaixar o tempo.

Quando fiz a inscrição para 2013 meu objetivo era terminar a prova com, no mínimo, 1 hora antes de 2012 e eu sabia que era perfeitamente possível pois eu estava muito bem treinado e 11 horas e 20 não me assustavam. No segundo semestre de 2012 voltei à estudar por uma necessidade profissional e as coisas começaram à não serem mais como antes, agora eu tinha a faculdade para dividir ainda mais meu tempo que já era dividido entre esposa e filho, trabalho, treino. Pensei comigo, “bom, agora esse é meu desafio! Fazer o Ironman em 1 hora a menos que ano passado e estudando”. Confesso que o que parece loucura pra mim pareceu motivador.

O ano de 2013 começou e com ele os treinos para a prova, tudo sob controle, natação, treinos de bike e corrida, tudo evoluindo conforme o esperado quando no final de fevereiro voltaram as aulas. A partir daí a equação começou a ficar desbalanceada porque trabalho + família + estudo = menos treino, o tempo que eu tinha para treinar eu já não tinha mais pois as atividades da faculdade estavam tomando um tempo enorme e eu não aceitava reduzir o tempo com minha esposa e meu filho, então só me restou reduzir o tempo dos treinos e foi quando eu comecei a ficar chateado, pois eu vi o tempo da minha prova indo por água abaixo e em um desses momentos de desânimo minha prova foi salva por minha esposa. Ela me disse assim:  – “abaixar o tempo só faz sentido pra você, para nós o que importa é que você termine a prova e fique feliz, você será sempre nosso Ironman”.

Essas palavras mágicas me tiraram imediatamente do desânimo e me trouxeram de volta todo aquele sentimento de desafio e superação que eu sempre tenho dentro de mim. Pensei comigo “agora esse é meu desafio, e já que não vou conseguir abaixar 1 hora do tempo então vou adicionar uma hora a ele”, ou seja, em esportes como o triathlon o atleta treina para melhorar sempre seu tempo, mas este ano eu estava determinado à piorar meu tempo.

Isso pode não fazer sentido pra quem está lendo agora, mas fez e ainda faz todo o sentido pra mim. Como eu disse em 2012 fiz uma prova tranquila e curtindo muito os detalhes dela, e aumentar em 1 hora meu tempo de 2012 significaria curtir ainda mais essa maravilhosa prova. E assim foi. Praticamente parei de treinar durante a semana e fazia apenas os treinos longos dos finais de semana. Os treinos que antes eram fortes e focados no relógio passaram a ser mais ritmados e focados em bater-papo, conhecer melhor aqueles atletas que também fariam a prova comigo e, quando possível, ajudá-los a realizar o grande objetivo de cruzarem a linha de chegada. Passei a não perder nenhuma oportunidade de parar pra ajudar um amigo quando o pneu dele furava, ou mesmo correr num ritmo bem menor daquele que eu estava acostumado para bater papo com os amigos e ajudá-los a superar as grandes distâncias de corrida que ainda haviam pela frente. Por conta do estudo não pude fazer o acompanhamento psicológico em grupo com nosso psicólogo Rafa Dutra, que no ano anterior havia me ajudado muito a completar a prova de 2012, com muitas lembranças da prova, mas do auto de sua sabedoria, ele soltou uma frase que me acompanhou por todo o treino que foi “O Léo está romântico” e eu usei esta frase pra me motivar o tempo todo nos treinos, pensava eu, “vou fazer um Ironmântico, com muito Ironmantismo”.

Lembro-me como se fosse hoje dos treinos longos de bike no rodoanel que, apesar do ambiente inóspito consegui curtir muito, ver paisagens que no ano anterior eu não havia visto, conversar muito durante as subidas exigentes e nas descidas, como uma criança, tirar a mão do guidão, abrir os braços e cantar “I believe I can fly”. Lembro-me que em um dos treinos na represa eu parei de nadar bem no meio dela e comecei à contemplar tudo aquilo, aquela quantidade enorme de água, aquela paisagem maravilhosa e pude perceber toda aquela natureza em seu esplendor. Foi quando nosso treinador, o grande Enzo Amato, chegou perto de mim com o caiaque e perguntou se eu estava bem e eu respondi que sim. Naquele momento percebendo que eu estava bem ele me disse “continue nadando que ainda falta muito pra chegar na ponte” (da via anchieta onde nadamos até ela e retornamos para a estrada velha de santos) e eu respondi “vou ficar mais um pouco aqui contemplando essa beleza que poucos tiveram oportunidade de ver e poucos terão do ponto onde estou agora” e fiquei lá por mais algum tempo, completamente imerso na água, apenas com a cabeça de fora, e percebendo minha pequenez em meio àquela imensidão ao meu redor.

O grande dia havia chegado, novamente eu estava lá, graças à Deus e com o apoio da minha amada esposa Bianca e meu eterno motivador, meu filho Davi lá estava eu pisando novamente na areia da praia de Jurerê em Florianópolis e rodeado de amigos os quais pude ajudar e ser ajudado a ali estar. Apesar de ser minha segunda vez a emoção era a mesma, aqueles momentos que antecedem a prova são mágicos e inesquecíveis e, aliados à meu compromisso de curtir ainda mais a prova, fizeram aquele momento ser singular para minha vida, principalmente porque à meu lado estavam amigos os quais eu devia à eles minha presença ali naquele lugar maravilhoso e que também estavam ali por influência minha.

Resumindo minha história com o esporte, nunca pratiquei atividades físicas na minha vida quando, há 6 anos, quando minha esposa e eu decidimos ter um filho.

Eu era fumante e pesava 26kg à mais do que peso hoje e comecei a correr para me auxiliar na perda de peso, mas sem nenhuma pretensão de praticar esportes.

Os amigos Isaac Razzante e Luciano Capas me incentivaram a comprar uma bike e ir pedalar na estrada velha num domingo de muito sol e uma paisagem exuberante que me fizeram fã incondicional daquele lugar.

O meu primeiro contato com o triathlon foi lá na estrada velha quando vi uma placa escrita “Simulado de Triathlon” do Júlio Vicuna, uma fera do triathlon brasileiro que com seu simulado incentiva muitos à experimentar o esporte e, consequentemente, apaixonar-se por ele. Bem, voltando à prova, novamente quando o Astro Rei apareceu por trás da montanha, Imponente e Esplendoroso, ouvimos a sirene que deu início à um dia maravilhoso de esporte e energias boas. Dei mais um abraço nos amigos, desejei boa sorte à todos e entramos na água. Daquele momento em diante eramos cada um por si, cada um fazendo sua prova e fazendo o que havia treinado, mas em momento algum nos esquecemos dos amigos que ali estavam e torcemos, uns pelos outros, para que tudo desse certo pra todos. A exemplo do ano anterior ao chegar na primeira bóia, 950 metros mar adentro parei por uns instantes para contemplar a vista da praia, olhei para o sol e agradeci novamente à Deus pela oportunidade de estar ali mais um ano celebrando a vida e o amor ao esporte.

Lembro-me como se fosse hoje da quantidade impressionante de águas vivas passando em minha mão e batendo em meu rosto, elas pareciam pequenas gelatinas passando por entre os dedos, não queimavam a pele mas a sensação era engraçada. Terminei a primeira volta, cumprimentei os amigos que encontrei na areia e entrei no mar novamente para mais uma volta de quase 1500 metros de natação, dessa vez despedindo-me da natação do Iron 2013.

Costumo dizer para os amigos que vão fazer a prova para aproveitarem o percurso, pois tanto na natação quanto na bike são 2 voltas, a primeira volta é para dizer olá ao percurso daquele ano e a segunda já é para se despedir, pois outra oportunidade de estar ali novamente só dali há um ano, isso se você for um dos sortudos que conseguirem fazer a inscrição. Digo sortudo porque são 2.200 vagas que se esgotam em poucos minutos (em 2012 foram apenas 14).

Ao sair da segunda volta da natação, quando pisei na areia e olhei meu relógio pensei comigo, “perfeito, piorei 6 minutos meu tempo do ano passado”.

Encontrei o Enzo e o Tatá (Otávio Lazzuri) na saída da natação e parei para conversar um pouco e é muito engraçado perceber a estranheza das pessoas que se acostumaram à ver atletas passando por elas correndo feito loucos em direção à tenda da transição e, quando um atleta sai da água e pára pra bater um papo com seu técnico e um amigo todos, ficam agitados gritando, “corre…”, “é por ali…” , indicando o caminho da tenda da transição e eu antes de ir caminhando para a transição me voltei em direção ao mar e disse mentalmente um “tchau, nos vemos ano que vem de novo”.

Fui para a transição caminhando tranquilamente, entre a areia e a transição devem ter uns 200 metros que este ano fiz questão de percorrer caminhando e notando todos os detalhes daquele trajeto, quando encontro com o André do MidiaSport, empresa que estava ali para filmar nosso time, e também nos incentivar, como várias vezes aconteceu durante os treinos em 2012 e este ano. Pessoal do Mídia, um abraço especial à vocês que passam por várias dificuldades conosco para capturar imagens maravilhosas que eternizam nossos treinos e nossa prova. E o André disse “corre Léo” no que eu prontamente repondi “não André, vou curtir meu momento” e ali fui eu, caminhando tranquilamente com meu wetsuit pendurado no braço e contemplando ao meu redor, quando encontrei o Alê, um verdadeiro guerreiro que, por um capricho do destino, impediu ele de estar entre os que largaram naquela manhã de domingo para fazer seu Iron.

Cumprimentei-o e continuei com minha caminhada e encontrei o Rafa Dutra, talvez analisando meu comportamento, como é típico de um psicólogo, e talvez pensando, “o que este cara está fazendo caminhando aqui?” onde é suposto que se passe correndo e me disse: “você está romântico mesmo hein Léo”, dei-lhe um grande sorriso e continuei minha caminhada quando entrei na tenda da transição. Peguei minhas coisas e saí para pedalar, observar as pessoas logo na saída da transição é muito bom, dá pra sentir a energia que eles passam a muitos metros, cada um está ali para torcer por uma pessoa diferente, às vezes pra uma equipe de algumas pessoas, mas dá pra perceber que eles também torcem por você, um desconhecido que passa por suas frentes e desaparece em poucos segundos com sua bike, mas mesmo assim eles fazem questão de te aplaudir, dizer palavras de incentivo e muitos até gritam seu nome quando conseguem vê-lo gravado junto ao número de peito. A primeira volta do percurso da bike foi ótima, temperatura agradável e quase sem vento o que me ajudou a curtir muito o percurso. O que falar da Avenida Beira Mar então, um pedacinho do paraíso que Deus escolheu à dedo e presenteou os Catarinenses talvez dizendo-lhes: “tomem, presente pra vocês, cuidem bem!”

Depois de passar pelo retorno, encontrar alguns amigos e trocar algumas palavras, comecei a segunda volta de bike, os últimos 90Km de ciclismo, hora de dizer tchau pra bike do Iron 2013, mas aí foi que a despedida ficou mais longa, um vento forte que parecia vir de todas as direções fez-se presente para lembrar à todos aqueles atletas que ali estavam que, apesar de todos os treinos, todo o esforço, horas de sono perdido e muitas dores, quem manda na prova é a natureza. É ela, majestosa e absoluta, quem dita as regras e diz se você terá um dia perfeito ou terá uma pitada à mais de dificuldade nessa prova que, já é dura por si só.

Pra quem não sabe o Ironman é uma prova de triathlon composta por 3,8 km de natação, 180 km de ciclismo e 42,2 km de corrida e, acreditem, o dia da prova é dia de festejar, difícil mesmo são os treinos, como o Rafa Dutra diz: “Difícil não é chegar na linha de chegada, difícil mesmo é chegar na linha de largada”. Significa que se você chegou até ali, naquele dia, naquela areia, com o peito encostado naquela faixa que só é erguida quando a sirene toca, de frente para aquele mar lindo e só de olho naquela boia, que parece tão distante, você já é um Ironman, passar pelo pórtico de chegada será apenas mais uma etapa à ser cumprida.

Bom, voltando ao ciclismo, a segunda volta foi desafiadora por conta do vento forte e, no sul da ilha fiz uma parada para ir ao banheiro, e neste ponto encontrei um colega que conheci nos cursos de árbitro de triathlon em São Paulo. Saímos dali juntos e como eu estava “curtindo a prova” e ele estava em uma situação parecida com a minha, também não tinha conseguido treinar o suficiente para melhorar o tempo e estava lá para completar e curtir a prova, saímos do sul em direção ao norte da ilha juntos e batendo papo. Nosso papo estava muito interessante quando fomos abordados por uma árbitra de moto que nos alertou sobre vácuo lateral, que é quando duas bikes estão andando uma ao lado da outra com uma distância menor à 3 metros. Ela foi embora e nós abrimos uma distância maior lateralmente um do outro para ficarmos dentro da regra e continuamos nossa troca de experiência quando a mesma árbitra nos interceptou novamente e pediu-nos para descer das bikes, pois ela iria punir-nos com 10 minutos no penalty box, tentamos argumentar com ela que estávamos a mais de 3 metros laterais um do outro, nos identificamos como árbitros de São Paulo e, nesta condição conhecedores das regras, argumentamos também que não existe vácuo numa subida, e foi onde ela nos parou mas, não teve jeito, fomos ambos punidos com 10 minutos no penalty box.

O penalty box é um espaço reservado onde ficamos parados por 10 minutos para cumprir essa punição após terminado o percurso do ciclismo. Se por um lado foi injusto, pois estávamos dentro do limite permitido, por outro lado foi muito engraçado porque dois árbitros nível internacional da ITU (International Triathlon Union), órgão equivalente à FIFA para o futebol fomos punidos por não seguir as regras, é mais ou menos como um guarda de trânsito ser multado por estacionar em lugar proibido, rs. Depois deste acontecido inusitado, despedi-me do Diogo e fui em frente para terminar meu ciclismo. Fiquei meus 10 minutos no penalty box e entrei para a transição para pegar minha sacola e, finalmente, começar a maratona, mas antes de sair pra correr fiz uma ligação para minha esposa que estava no hotel com meu filho que, no dia anterior havia tido uma dor de ouvido muito forte e nos fez fazer um tour pelos hospitais e farmácias do norte de Floripa.

Peguei o celular que eu havia deixado previamente na sacola da corrida e, com muita calma me sentei, estiquei as pernas e comecei minha ligação, outros atletas passavam por ali desesperados para fazer uma transição rápida e viam aquele cara ali, sentado, com as pernas esticadas falando ao celular como se estivesse de férias na praia e, de fato era isso mesmo, eu estava de férias na praia de Jurerê e curtindo um Ironman. Boas notícias, meu filho havia melhorado e não havia tido febre durante todo o dia, ótimo! Agora eu só precisava correr aproximadamente 13 km pra encontrá-los e dar-lhes um abraço gigante.

O percurso da maratona do Iron passa bem em frente ao hotel que sempre nos hospedamos então essa é a minha primeira meta no Iron antes da linha de chegada, chegar no hotel para o abraço da família.

Entre as praias de Jurerê e Canasvieiras está um morro que deve ser vencido por aqueles que querem cruzar a linha de chegada e, quando eu estava subindo encontrei o amigo José Renato Ferreira, paramos uns instantes para um papo e ele me disse que estava se sentindo bem na corrida, o que me deixou feliz, pois era mais um amigo que iria terminar a prova. No alto do morro que divide a praia de Jurerê e Canasvieiras está uma das vistas mais lindas que eu já vi na minha vida, aquela vista deveria ser tombada como patrimônio da humanidade e, novamente, parei neste ponto para observar a vista e o pôr do sol que estava quase acontecendo. Embasbacado com aquele espetáculo da natureza, eis que ouço uma pergunta “gostou da vista do meu quintal?” quando olho para o lado, há poucos metros de mim estava um rapaz de aproximadamente uns 35 anos, sentado numa cadeira de praia tomando uma cerveja e duas mulheres ao seu lado aproveitando para curtir a prova, vendo os atletas passando e aquela vista espetacular.

Cheguei mais perto deles e ficamos alguns minutos falando sobre o quanto eles eram afortunados por terem, todos os dias, um pôr-do-sol esplendoroso como aquele e, ainda melhor, saber que amanhã naquele mesmo horário o espetáculo estaria lá novamente, gratuito, pra quem quisesse ver. Nisso passa um atleta por nós que já estava voltando para completar seus primeiros 21km de corrida, olha pra mim e diz: “vamos! vamos! você se inscreveu na prova pra ficar conversando?” E eu, sem pensar disse à ele “olha só o que você está perdendo!” mas cada um está lá por seus motivos pessoais e, sim, eu estava lá pra aproveitar meu dia com tudo de melhor que ele pudesse me oferecer e isso incluía ficar parado por 5 minutos batendo papo e olhando o pôr-do-sol.

Pronto, hora de ir ao encontro dos meus amores, faltava bem pouco agora, apenas uns 4 km pro beijo da minha esposa e o abraço do meu pitico. Quando entrei na Rua Madre Vilac, por onde passa a corrida, rua do hotel, encontrei os amigos Luciano Capas e Isaac Razzante, ambos me pareciam muito bem, perguntei a eles como estavam se sentindo e eles disseram que estavam bem, vê-los bem na corrida me deixou feliz, pensei comigo “ótimo, mais dois amigos pelos quais eu estava torcendo e que irão completar a prova”,e apertei o passo pra chegar logo nos meus amores.

Encontrar uma esposa que nem se incomoda de abraçar um cara todo suado e meu pequeno e grande inspirador e motivador que também corre à meu encontro e pula no meu colo dizendo: “papai, papai, vamos correr no Ironman?”. Coitadinho, ele já estava ali há um tempão esperando o papai só pra poder “correr no Ironman”. Quando cheguei no hotel foram muitos abraços e beijos e fui correr com as crianças, o Davi, o Luquinhas e a Lelê me acompanharam por uns 400 metros até o tapete de controle de tempo que estava logo na outra rua e marcava o começo do retorno para completar a primeira volta. Esses 400 metros de corrida com as crianças fizeram minha prova valer a pena, só de ver a alegria das crianças em correr aquele trecho, e ainda mais do Davi em estar correndo com o papai no Ironman foi tão bom que eu não queria mais deixá-los e voltar pra prova, estava realmente muito bom ali. Fui até o banheiro do hotel lavar o rosto e depois de mais um monte de beijos voltei para a prova.

Eu me sentia muito bem e meu ritmo de corrida estava bem forte, quando entrei na Avenida Búzios para completar a meia maratona encontrei o Enzo e o Tatá novamente, e percebi que o Enzo ficou contente em me ver correndo forte, trocamos umas palavras e segui na prova. Peguei a primeira pulseira de cor verde que indicava que eu já havia completado metade da corrida e pensei, pronto, agora são só mais 21km pra encontrar minha família e cruzar a linha de chegada, muito feliz e satisfeito com minha prova “curtida”.

Eu estava dentro do tempo que eu havia previsto, iria terminar a prova entre 13 horas e 20 minutos e 13 e 30, perfeito !

No km 26 encontrei o amigo Eduardo Anjos, que já havia pego a segunda pulseira de cor laranja, isso indicava que ele já estava correndo seus últimos 10km, mais uma vez a satisfação de ver outro amigo completando a prova. Quase que no mesmo lugar encontrei novamente os amigos Isaac e Luciano, ambos estavam correndo juntos e quando os alcancei pensei, vou conversar um pouco com eles, ver se está tudo ok e vou seguir na minha prova, pois imaginei que eles também estivessem muito na minha frente quando percebi que eles também só estavam com a pulseira verde e perguntei se eles estavam na mesma volta que eu, e eles responderam que sim, o Isaac sentiu dores nos joelhos e teve que caminhar por uns instantes, neste momento tomei a única decisão que eu poderia, eu disse: “vamos terminar a prova juntos!”

Eles insistiram para eu continuar no meu ritmo, pois eu estava muito bem, mas definitivamente, minha prova agora era ajudar dois amigos a cruzarem a linha de chegada. Andamos, corremos e conversamos muito, falamos sobre nossas provas, sobre o vento, sobre as pessoas que ali estavam, se nossas famílias já haviam chegado para acompanhar-nos ao cruzar a linha de chegada e celebrar mais essa vitória que, em momento nenhum é individual, é um esforço enorme familiar.

Ficar longe da família durante tantas horas nos finais de semana devido aos treinos é mais fácil pra nós atletas que, apesar do esforço físico estamos sempre com várias pessoas agora, nossas famílias estão sozinhas em casa aguardando ansiosa nossa chegada e,quando chegamos cansados de um treino de 180 km de bike, onde acordamos às 5 da manhã, pedalamos por 6 a 7 horas e chegamos em casa cansados aí sim temos que ser Ironman e dedicar-nos de corpo e alma (nessa hora é praticamente só alma porque do corpo sobrou pouco), à nossa família.

Ao chegarmos próximo ao local onde pegaríamos a segunda pulseira encontrei nossas famílias e parei para conversar um pouco e avisá-los que faltavam apenas 10km pra terminarmos a prova e que, no máximo dali a 1 hora, 1 hora e pouco estaríamos ali.

Os últimos 10 km foram desafiadores, porque o frio já estava presente e, apesar de estamos correndo não era suficiente para esquentar nossos corpos, mas vamos lá, falta pouco. Sempre que entro na Avenida Búzios e vejo o cruzeiro iluminado do hotel Campanário para os últimos 3 km da maratona me lembro do amigo e Ironman Eduardo Coimbra que diz “agora só Deus me pára!” e a emoção começa a tomar conta do corpo.

O frio, como num passe de mágica passa e dá lugar à um emaranhado de sentimentos que nenhum Ironman consegue descrever mas que eu, por enquanto, só senti por 3 vezes na vida, duas ao cruzar aquela linha com minha família e outra quando vi pela primeira vez o rostinho do maior presente que minha amada esposa me deu, meu filho, ao ter acabado de nascer (estou arrepiado ao escrever estas linhas).

Vencemos os últimos kms da corrida, chegamos ao corredor de pessoas que esperam por seus atletas, para juntos, cruzarem o pórtico de chegada e, ao ver minha esposa e meu filho ali me esperando, chegou meu momento de êxtase total, demos as mão e juntos cruzamos, em 14 horas e 15 minutos o pórtico de chegada para mais uma vez ouvir do locutor dizer, Leonardo, parabéns, você é um Ironman!

Agradeço à minha família pelo apoio e pela paciência, aos amigos pela motivação e por terem compartilhado comigo horas e horas de treino e bom papo e ao coach Enzo por ter me colocado na linha de chegada mais uma vez, e vamos lá que o Ironman 2014 está chegando …

O limite só existe até o próximo desafio!