De 102 para 88kg e um Ironman nas costas.

Na coluna Minha História do Eu Atleta. Um dos grandes que já treinei para concluir o Ironman.

Sempre digo que uma pessoa dedicada consegue fazer um Ironman, essa é parte da história do Leandro.

Reportagem de Igor Christ

Ex-fumante e ex-sedentário, Leandro Dasler via o ponteiro da balança subir a cada dia e cultivava maus hábitos. Profissional de tecnologia da informação, ele começou a se preocupar com a saúde e notou que a corrida poderia fazer parte da vida dele. Por isso, o novo Leandro começou a treinar, fez provas curtas no início, encarou uma maratona um tempo depois e conseguiu a proeza de completar um Ironman (principal triatlo do mundo). Nesse período, emagreceu 14kg (de 102 para 88kg) e se transformou numa outra pessoa. Clique e leia a reportagem completa.

O Ironman dos Leandros.

Por Leandro Dasler

“Hum… Meia… Quatro… Isso mesmo!!! Hum Meia Quatro Nove!” Foram com essas palavras proferidas pelo Carlos Galvão apontando para minha esposa que segurava meu número de peito do ano anterior que meu Ironman 2015 começou. Depois de ganhar uma inscrição tão cobiçada não havia outra escolha. Pois é, ganhei a inscrição de 2015 num sorteio que rolou durante o lançamento do DVD oficial em julho de 2014, nesse dia ficou sacramentado que haveria uma história para ser contada em 31 de maio de 2015. Esta história aqui.

Embarquei para Floripa na quarta-feira em três pessoas. Fabíola, esposa, co-coaching, co-nutri, co-pacer, co-médica, co-enfermeira e companheira que acompanhava dois homens. Um deles era o Leandro P3, aguardado para a prova desse ano, era o centro das minhas atenções quando calculava as previsões de prova, requisitado em todos os bate-papos com amigos, zeloso com seu equipamento e cauteloso nas perspectivas de médias para os 180km. Falava, elogiava e era elogiado. Ninguém sabia o que poderia ser feito, mas todos apostavam que Leandro P3 seria o diferencial de um Iron para o outro. De 2014 para 2015. A aposta certa para baixar o tempo de 2014 em 1 hora. A terceira pessoa foi o Leandro corredor, quieto, calado e sem holofotes, chegou no aeroporto e, somente foi útil quando precisou carregar alguma mala ou segurar alguma porta para acomodar uma bagagem ou a bike. Ficou quieto. No grupo, sempre andava um pouco para trás e sempre prestava atenção para não ser deixado pra trás. Dormimos nós três no quarto e passamos os dias juntos. Fabí, Leandro P3 e Leandro corredor.

Domingo levantei cedo. Dentro do horário e tudo previsto. Havia dormido bem e meu relógio biológico estava acostumado a acordar cedo. Tomei café e voltei pro quarto. Banho rápido e fomos para Jurerê. Haviam muitas dúvidas sobre quais as roupas para pedalar e como estaria a temperatura. As dúvidas só não eram maiores que o assédio ao Enzo para arrancar, talvez como último suspiro, algum conselho que pudesse ser útil para a prova.

Preparação feita e todos encaminhados para a largada. O clima na minha cabeça era tranquilo. Sabia que precisava somente nadar. Diferente do ano passado onde a natação era o grande desafio, esse ano sabia que nada de surpreendente nem de decepcionante poderia acontecer. Eu simplesmente nadaria e pronto. Estava tranquilo. E assim foi. Haviam ainda dois Leandros me esperando. Um lá quieto na T2, Leandro corredor, sentado em uma das cadeiras amarelas da transição aguardando sua vez. Na T1 estava quem mais me pressionava para terminar: Leandro P3 ia e vinha, conversava com um, batia foto com outro, apertava novamente os pneus, voltava, alongava, arriscava falar em 32km/h de média…

Aquele som da buzina que emana às 07:00 é um dos motivos que fazem os atletas voltarem ao Iron no ano seguinte. Ele é seguido de uma gritaria de todos os lados e uma corrida orgânica pra água. Start no Garmin! Ajeitei o óculos, afirmei a touca mais uma vez. Toquei a água: me benzi, pedi ao pai lá em cima que protegesse à mim e todos os atletas. E fui pro mar. A água não estava tão gelada quanto parecia. Mas o mar parecia mais vazio do que estava.

A organização mudou o formato da natação colocando boias intermediárias. Com isso todos os atletas ficaram afunilados e o bate-bate foi mais constante. Graças a Deus não tomei nenhuma pancada forte. Nem dei nenhuma. Fui nadando. Os primeiros 300 metros nadei exatamente ao lado do Ronaldo. Depois minha navegação me mandou pra outro lado e nos perdemos. Continuei em frente. Virei a primeira boia, contornei a segunda e parti em direção à praia. Comparado com o Iron do primeiro ano essa primeira perna demorou demais. Nadava, nadava, nadava e não chegava. Ao fazer o contorno na areia olhei no garmim: Vi o tempo mas não processei nada. Não havia perspectiva. Não sabia se estava indo bem ou se estava ruim. Olho pro lado e vejo o Bolla. ESTOUREI! Sabia que ele nadava bem e fiquei feliz. Mais feliz ainda quando ele me disse que estava 3 ou 4 minutos abaixo do que ele tinha previsto!! Vamo que vamo! Demos um abraço forte e caminhamos para a água. Partimos para a segunda perna. O mar estava mais mexido na segunda volta e os estímulos foram diferentes. Foi mais legal, pois deu uma cara de mar na natação. Quando reparei estava saindo da água. Olhei no relógio e estava 1h15min. PQP!! mais de 5 minutos abaixo do que eu previa e não havia feito esforço. Ótimo. Bora pra T1 que o Leandro P3 esperava seu momento.

Encontrei a Fabí na saída da água. Legal! Bom ela saber que está tudo bem comigo…rs Pego a sacola e corro para a tenda. LOTADA. LOTADA. Perdi uns 2 minutos com os staffs atrapalhados tentando acomodar todos. Fiz minha T1 no chão mesmo. Foram 10 minutos. Paciência. Agora era a hora!!

Leandro P3 subiu na bike e vamo que vamo! Encontrei com a Fabí ainda na Búzios novamente. Aquela força extra que faltava. No começo estava ventando um pouco e olhava atenciosamente para a média, que começava baixa. Muito baixa. Aí pegamos a estrada e foi abrindo um pouco o caminho. Já quase na beira-mar olho para alguns atletas voltando e vejo o Ale. Noto que o retorno não estava muito longe e pensei: Estou bem! A primeira volta passou muito rápido. Alimentação a cada 10 km. Tudo certinho. No retorno de Canasvieiras na primeira volta vejo o Witney bem à frente. Retorno e percebo o Ale já atrás de mim. Possivelmente eu o tenha ultrapassado quando ele fez alguma parada. Legal! Logo ele vai colar e vou ter uma boa referência. Entro em Jurerê e encontro o Enzo no mesmo ponto que o ano passado. Junto com o Dú Coimbra. Pela cara dos dois eu estava bem kkkk. Viro nos 90km e não achei a Fabí. Fiquei um pouco preocupado. Gritei para o Enzo avisar que eu já tinha passado caso encontrasse com ela.Olho no relógio e estava com 33.1km/h de média. Pensei: Pelo vento no início e a sensação de esforço que eu fiz está ótimo! Me alimentando certinho ainda e seguindo tudo como previsto.

Na segunda volta as dores que eu esperei na lombar e no pescoço não vieram. No km 140 consegui alcançar o Witney. Pedalamos juntos uns 10 minutos, batendo papo e curtindo a prova. A vontade de martelar os pedais era muito forte, mas fiquei calmo e segurando a vontade. A média foi caindo até 32km/h e eu sempre pensando que a prova estava boa e não havia necessidade de arriscar. Depois da última subida me perdi do Witney e resolvi apenas fazer um esforço para manter a média acima de 32km/h e pensar somente na maratona. Estava no km 170 e a alimentação estava 100%. Dava pra pedalar mais uns 50km fácil. Nesse Iron, assim como no ano passado, acabei pedalando próximo há alguns atletas a prova inteira. Sempre tive uma subida forte e com isso passava muita gente. Depois na descida sempre fui conservador (nas duas últimas nem clipado eu estava..rs) e era ultrapassado. Ainda brinquei com um carinha que pedalou perto de mim desde o km 10: “Vou telefonar pra Latin e pedir para colocar mais uns 60km pra ter graça! Missão cumprida” brinquei com ele.. Chegando na virada da Búzios encontro o Enzo e sinalizo que estava tudo bem. Avistei ainda a Fabí chegando e fizemos muita festa! Estava muito feliz de ter entregue a bike em primeiro da turma. Cheguei na área de desmonte sem inventar de tirar a sapatilha andando. Nada disso. Simples! Menos é mais. Pedal para 5h36min. 32.1 km/h de média. Ótimo.

Esses próximos 10 minutos de prova foram determinantes pra mim. O final da bike, os 4min59seg de T2 e os primeiros 5min da corrida. Sabia que estava bem e que chegaria inteiro pra maratona. No final da bike eu só pensava no livro No ar Rarefeito, de Jon Krakauer, reforçava que nessa hora não podemos tomar decisões e devemos seguir o que foi planejado. Pensava muito no trabalho que fiz esse ano novamente com o psicólogo Rafa Dutra, na frase “Deu duas horas vc vira e volta”. Lembrava da música que trabalhamos no último encontro: Simples Assim, do Lenine. Calma. Segura. Calma. Segura. Só que quem estava pensando nisso ainda era o Leandro P3.

Sub 11h foi sim um objetivo que apareceu depois que os treinos começaram a encaixar. Só que para isso dar certo, segundo minhas contas, eu precisava SAIR da T2 com 7 horas de prova. Faria uma fantástica maratona para sub 4h e tudo certo. Porém eu saí da T2 com 7h07min. Leandro P3 comentou: “Fiz o que pude para deixar vc inteiro! Corre bem aí e não quebra que dará 11h baixo. Só que ele não contava com uma coisa…

O Leandro corredor resolveu mostrar serviço. Lembrei de todos os treinos de pista que fiz, ainda garoto, lá no São José. Das muitas corridas que participei. Da pasta com diversos números de peito. Que correr sempre foi algo orgânico pra mim. Saí sem frescura. Garmin, tênis, comida e só. Leandro P3 ainda fazia contas para 11h15min quando o corredor falou baixinho pra ele: “Sossega o facho aí que vc ainda é garoto. Tenho umas coisinhas aqui que eu preciso te mostrar”. E o que aconteceu daqui pra frente foi algo que eu não esperava.

Encontrei com a Fabí depois de uns 500m e vi o Enzo no primeiro km. Ele foi bem enfático: “Vai assim que vai dar Sub 11h”. Os primeiros km foram por volta de 5’00” p/km. Só que meu foco estava no bpm. Sabia que não deveria passar dos 140. Então não liguei pro pace. Estava mais rápido do que eu planejei, mas o importante era o batimento. Religiosamente essa regra foi cumprida. Vagaroso nas subidas pesadas da primeira parte e constante nas retas. A meia foi fechada para 1h53min. Sabia que o Sub 11 estava garantido já. Passei pelo Dú Coimbra e as palavras dele ficaram fixas na minha cabeça: “Leandrão, tá animal meu velho!! Tá animal!!”

No retorno falei com o Enzo que estava confortável, mas que eu não iria abusar. Mantendo aquele ritmo eu trabalharia uma margem de folga do Sub 11h para algum imprevisto como um banheiro ou algo assim. Novamente eu passei pelo Enzo no km 30 e confirmei para ele: “Vou manter isso aqui para não colocar nada em risco!”. Até dá, mas eu não quero.

Foi uma maratona para 3h43min. Em nenhum momento o bpm passou de 140. Não andei nenhuma vez e não fui ao banheiro. Não tive dores nem câimbras. Nem sede nem fome (isso tem um nome e se chama Ricardo Zanuto). Nenhum problema de estômago. A única dúvida que fica é: Será que eu poderia fazer abaixo? Ainda não posso responder essa pergunta. Mas em 2014 eu disse que veria o pórtico novamente. Um dia. Esse dia chegou. Teve nome tb. 31/maio/2015. Cheguei feliz! Lembrei do Enzo falando pra curtir o tapete. Lembrei da minha esposa e do quanto ela se dedicou para que tudo isso desse certo.

Atravessei o tapete olhando para o pórtico e afirmando: “Eu vou sentir muuuita saudade. Mas valeu tudo”.

(Fabíola Gomes + Enzo Amato + Ricardo Zanuto) / 3 = Leandro Dasler

Leandro