Jungle Marathon

Essa prova é organizada por uma inglesa, só é divulgada lá fora, e só dá acesso a imprensa estrangeira, ou seja, é para os gringos e ponto final! Mesmo assim todo ano alguns brasileiros marcam presença, e em 2013 trago o relato do Cleber, de 39 anos, que como todo brasileiro que não conhecia a floresta, não tinha ideia do que lhe aguardava numa ultra prova na selva.

Jungle Marathon, por Cleber Z. Evangelista

Chegamos no aeroporto de Santarém no Pará, de táxi seguimos a Alter do Chão, e mais uma viagem nos aguardava, agora 12 horas de barco até chegar ao acampamento, onde os atletas já se ambientavam para uma corrida de 7 dias e 257km, entregamos atestados médicos e antes de receber o número fizemos a verificação de itens obrigatórios, meu kit era composto de comida para os 7 dias, roupa seca para dormir, roupa para a prova, primeiros socorros, repelente e garrafas para hidratação e suplementação. No outro dia, tivemos a instrução de sobrevivência na selva (foto acima), primeiro com os bombeiros sobre os riscos da prova, hidratação, depois com os nativos sobre plantas que cortam, espinhos e animais perigosos e por último com os médicos. Nesse dia já estávamos dormindo em redes no meio do mato e muitas formigas só esperando a prova começar.

No acampamento do 1º dia, após a instrução e esperando a largada dia seguinte. Sou o que tem a tattoo nas costas.

A essa altura muitos que se inscreveram para 257km optaram por mudar para a prova de 126km de 4 dias que acontece simultaneamente.

Largada da 1ª etapa, 23km, minha mochila pesava 14kg, todos saíram correndo rápido demais, e fiquei bem atrás logo de cara, minha estratégia era começar lento e aumentar o ritmo depois do terceiro dia, que era temido por todos, errei na hidratação, comecei com todas as garrafas cheias d’água, com medo de faltar, mas o primeiro check point foi rápido, com apenas 5km, e não havia bebido muita água até aí, comecei a mudar de estratégia na hidratação, estava muito quente, 38º e na mata fechada a sensação térmica era maior ainda, atravessamos pântanos, igarapés, muitas subidas e descidas, cada PC estava a 6,5km um do outro, e fiz praticamente o percurso todo com os pés molhados, fechei essa primeira etapa em 6h23, no acampamento pegava água quente para as refeições e armava a rede para dormir tranquilo. A organização só dava água, toda a comida que usaria na prova estava na minha mochila e nem as frutas da floresta podíamos comer.

Segunda etapa, 24km, começamos atravessando um rio profundo de uns 300mts, nesse dia o percurso tinha uma quantidade enorme de plantas com espinhos, folhas que cortavam e muitas cobras, consegui até tirar foto e filmar uma jararaca d’água venenosa. Dia praticamente plano, completei o percurso em 5h15, ganhei 4 bolhas nos dedos dos pés, fiz curativos com os médicos, e um grego foi o primeiro atleta a experimentar a temida hot shot, um tipo de cola quente injetada nas bolhas, os gritos do atleta causaram pânico em todo acampamento e era só o fim do segundo dia.

Terceiro dia e a etapa mais temida 38km, começamos com outra travessia de rio profundo, agora maior, 450mts, depois muitas subidas, descidas de matar e morros implacáveis, e finalmente entramos na Floresta Nacional do Tapajós (FLONA) que tem a maior população de onças, dormimos em acampamento no interior da selva, muitos bichos foram vistos, aranhas armadeiras, escorpiões, cobras, senti muita ânsia e tontura no percurso e pensei que não conseguiria terminar, cheguei só a noite, com várias picadas de vespa e zangão. (foto abaixo) A maioria dos atletas foram picados durante o trajeto, meu tempo para os 38km foi de 12h21, cheguei todo arrebentado, fiz curativos e apesar dos ótimos médicos no comboio da prova, minhas bolhas pioraram.

Quarta etapa, a maratona mais difícil do planeta 42km, subidas e descidas na mata fechada, travessia de igarapés de 1km, pântanos longos de 1km, praias fluviais, tinha de tudo, estava sempre com os pés molhados, os postos de abastecimento de água começavam a ficar espaçados demais, a cada 13km, mudei minha estratégia novamente, fiz todo o percurso com os 2 litros e meio de água, minha mochila já pesava uns 10kg. Cheguei bem, mas com os pés destruídos, descansamos numa das praias mais lindas da região, na aldeia de Jaguarari. Existem várias pequenas aldeias em Flona que vivem da agricultura e pesca de subsistência e bem pouco do turismo. Terminei a etapa com 9h52, muitos já haviam desistido da prova.

Só meu cabelo ficou seco durante a prova.

Quinta etapa, a mais longa de todas, 108km, e 40 horas de tempo limite para terminar, era para começar as 4:30 da manhã, mas houve um replanejamento no trajeto e tivemos que começar só às 14hs, com um sol de rachar o crânio, alguns passaram mal e desistiram da prova, mudei minha estratégia novamente, pensava em fazer 50km, descansar e terminar os 58km no outro dia, mas resolvi acompanhar uma equipe de brasileiros que queriam fazer todo percurso sem descanso, os pontos de controle já estavam bem espaçados, a 18km e só carregava 2,5 litros de água, e ainda tínhamos que lidar com a possibilidade de nos perder, porque o trajeto havia sido aumentado em 10km e isso aconteceu com muitos outros no percurso, no último check point, eu e mais dois atletas ficamos para trás, um italiano, o Alfred, e o outro brasileiro chamado Marcelo, ficamos perdidos na mata por uns 7km, cerca de duas horas até reencontrar a rota da prova, chegamos no nosso limite, 21h26, passamos a tarde, noite, madrugada e manhã andando e correndo, superação total ainda mais se lembrar que estávamos na floresta, no escuro e com todo ruído assustador da floresta, que quem vive na cidade não imagina o que é. Neste dia quase todos os atletas choraram de alegria, chegamos num lugar maravilhoso, o nosso acampamento.

Eu e a brasileira Jacque, que já faturou 4x a prova, quase chegando.

Sexta e última etapa, por causa do replanejamento de percurso de última hora tínhamos que fazer só mais 12km para completar a prova, e totalizar 247km, 10 a menos que o previsto no início, mas não suficientes para deixar a corrida menos nobre ou mais fácil, corremos os 12km só na areia da praia e nada de sombra, foi minha melhor corrida, fiz em 1h14, meus pés estavam em carne viva, mas a vontade de terminar era tão grande que mal sentia dor.

Prova concluída, dos 42 que largaram só 30 chegaram, organização perfeita, conheci pessoas fantásticas e lugares que jamais esquecerei.

Obrigado a Shirley Thompson diretora da prova, a todos os atletas presentes, equipe médica, a todos os bombeiros de apoio, massagistas, mídia, e nativos !!!!

Não pretendo fazer a prova novamente pelos ricos de acidente que a prova pode causar.

Cleber Zsengeller Evangelista.

20 ideias sobre “Jungle Marathon

  1. Parabéns por compartilhar esta história maravilhosa!!! Eu fiquei emocionada!!! Eu tenho prazer em ouvir e conhecer pessoas assim tão fortes e determinadas!
    Abraço

  2. Parabéns Cleber! Essa foi a minha segunda Jungle Marathon, a primeira foi no ano passado, e sofri tanto quanto você. Não foi nada fácil, aliás, uma frase que sempre me vem a mente quando estou completando cada Etapa e esperando pela seguinte: “nunca tem alívio!”. Tenho certeza que teve a mesma sensação, mas a emoção de completar é igual para todos. Para nós (eu, Gustavo, Alex e Parazinho), a prova desse ano teve um sabor especial, pois no ano passado, a completamos em fiapos, e o Alex nem conseguiu terminar, devido ao estado dos seus pés, por esta razão nos preparamos com muita seriedade durante meses, para enfim, atingirmos a performance e as colocações que nos julgamos merecedores. Além desse “detalhe” coletivo, saliento que o ambiente da prova, sobretudo entre os atletas brasileiros foi excepcional, um grupo unido, amigo e solidário; e espero encontrar você e os demais em outras aventuras e desafios.
    Selva!
    Abraços
    Roberto

    • Obrigado Roberto !!!!! muita dedicação , disciplina , e humildade!!!! espero fazer novas aventuras com os brazucas malucos!!!! fica na paz !!!!!SELVA!!!!abraço

  3. Brother vc foi fantastico na materia,, e claro durante a competição tambem foi atimo asou a cabeça e completou aquela brabeira… voltamos no proximo ano juntos….aaaa.
    Abrço nobre amigo…
    Namaste
    Luiz e Jacque

    • Grande Luiz e Jacque!!!!!vc sabe q vcs tiveram parte na minha conquista , me ajudaram muito na prova!!!! fico muito feliz em saber que tudo deu certo , apesar dos traumas…ahuhauha
      Toh criando coragem ainda…….tem muita formiga la..uahhauha

      ficam com DEus !!!!!abraçossss

  4. Parabéns ao blog pela brilhante matéria publicada e Parabéns pra você, Clebão, pelo exemplo de determinação, coragem, disciplina, treino, raça, superação e muito mais. O seu depoimento é incrível e a sua experiência ficou ainda mais rica. Alegria, Força e Fé Sempre!

    • Obrigado Rodrigão !!!!!!! agora quero treinar vc neh!!! precisdamos marcar uma pernada na serra pelo menos uns 30km pra começar a esquentar….e fala pra Cris não fugir dos treinos!!!!toh na cola dela…abraçossss e bjusss e vai Parmeiras

  5. parabéns cleber, vc mostrou bastante força de vontade e superação, vc é um verdadeiro guerreiro….parabéns e sucesso pra voce….um forte abraço em nome da equipe de Bombeiros/resgate.

    • Washington!!!!!! sem a ajuda de vcs nada seria feito , e conquistado , quero agradecer pela ajudas dadas nas horas mais dificeis na selva , obrigado parceiro!!!!

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