235km Ultramaratona dos Anjos Internacional

Meu depoimento da UAI. Ultramaratona dos anjos internacional 2015

235 KM –  X HARD SURVIVOR

 Por Cleber Z. Evangelista

Sexta feira 03 de julho, cidade de Passa Quatro em Minas Gerais, largada às 8 horas da manhã, abasteço as garrafas de água, toca o hino nacional e inicia a corrida. Primeira parada em Itamonte km 25, subidas longas no começo, não fiz esforço nos primeiros trechos da prova, mantive uma estratégia de completá-la próximo ao tempo limite de 60 horas. 11h30min da manhã entro na cidade de Itamonte abasteço as garrafas e levo uma extra na mochila, comi banana, maça e suplementos.

Próxima parada PC 2 em Alagoa no km 65, são 15 km de subidas intermináveis.

Nos primeiros 5 km fiquei preocupado com a água, freqüência cardíaca subindo, boca seca, porém sabia que teria um lugar para me alimentar e abastecer de água. Foram mais 2 km até encontrar o bar. Devoro um x-egg salada e tomo uma coca cola para enfrentar 8 km de subidas até a entrada do parque estadual serra do papagaio. Levo bastante água e a mochila pesa, um tremendo incômodo nos ombros, subidas longas, freqüência alta e respiração no ritmo certo. Na parte mais alta da serra, faço um soro de glutamina, pastilha de sal, isotônico, água, bicarbonato, e bcaa. Tenho que tomar um gole a cada 40 minutos até o final da prova.

22 km de descida até Alagoa no km 65, gosto de correr nas descidas, e mantive um ritmo bom. Ventava bastante e me obrigou a vestir o corta vento. Descidas íngremes e perigosas de ponta de paralelepípedo. Foi onde torci meu tornozelo ano passado então fiquei bem atento.

Entro numa estrada de asfalto uns 6 km de descida e o anoitecer, lanterna na cabeça e mantenho o ritmo, mas ando um pouco. Chego na cidade de Alagoa às 7 da noite e antes de passar pelo PC paro num restaurante para me alimentar. Comi arroz, feijão, macarrão, frango, tomate, e coca cola.

Ando até o PC3 uns 300 mts, tiro os tênis, as meias, passo hipoglos em tudo, virilha, embaixo dos braços, nos pés, e pomada balsamex nas coxas, lombar e panturrilhas… Tomo os suplementos necessários, abasteço com muita água, faço um novo soro, e sigo rumo aos 95km.

São 30 km de escuridão e sem casas, todo cuidado é pouco, fiz esse trecho acompanhando várias equipes de atletas fazendo os 235 km com apoio, uns 6 atletas, e em especial a equipe de Renato e seu pacer Victor, atletas do RJ. Conforme a madrugada avança o frio aumenta bastante. Alterno caminhada com corrida e sinto desconforto no estômago. Comi demais e a refeição está pesando.

De madrugada, cansado e com sono, preciso descansar, chego na cidade de Aiuruoca às 2 da madrugada, passo pelo PC, e vou para uma pousada a uns 200mts. Ao chegar tomei uma dose forte de whey protein, descansei por umas 2 horas, e ao levantar sinto muitas dores nas pernas. Tomo um banho, passo as pomadas necessárias, tomo um café, com pão e queijo branco, uma dose forte de gel de carbo e abasteço de água.

Agora são 10 km até o ponto de parada obrigatório a cachoeira dos Garcia. Está frio e devo ter subido uns 4km. Ao amanhecer tenho um visual maravilhoso. As subidas ficam tão íngremes que tenho dores na lombar. Com o solo de pedras pontiagudas tenho que ficar atento para não me machucar. Minha freqüência estava altíssima, e esquenta muito, tiro algumas camisetas.

Chego à casa de apoio km 105 às 8 da manhã completando as primeiras 24hs de prova, e sou super bem atendido pelo morador e cuidador da cachoeira dos Garcia, o Juninho, que  fez uns ovos fritos, ainda comi arroz, frango caipira, fava de mel e doce de abóbora. Toda essa alimentação me deixou super animado e forte.

Parte mais alta da prova, 1900m. km 110, cachoeira dos Garcia.
Foto: Arquivo pessoal

Agora são 3 km de subidas até o topo do pico depois só descidas até a casa rosa, casa de apoio de peregrinos e da prova. Na parte mais alta da montanha (foto acima) tenho que parar um pouco para admirar a paisagem que é maravilhosa… tiro umas fotos e desço a montanha. Corro num ritmo forte, me empolgo um pouco, passo por vários atletas, muitos já mancando e machucados.

Na casa rosa tomo uma coca cola, suplementos, alongo um pouco as pernas no chão, abasteço as garrafas de água, e sigo viagem, agora são 8km até Baependi km 135.

Nesse PC tenho um container com todas as coisas que deixei com a organização um dia antes da competição, contendo suplementação, meias limpas, pilhas novas, remédios, castanhas, rufles, pego o necessário, deixo a roupa suja e o que não usaria mais, deixo a mochila sempre com um peso leve de 3 a 4 quilos no máximo.

Tomo um banho, almoço um pratão de arroz com macarrão, ovo frito, bebo mais uma coca cola bem gelada e suplementos. Passo as pomadas, converso com a galera e relaxo um pouco. Tudo sob controle, corpo reagindo bem, cabeça no lugar, concentração total e sempre no foco.

Agora são 12 km até a cidade de Caxambu velha, depois mais 5 km até Caxambu nova PC 6.

Sempre preocupado com a água, por isso sempre levo uma garrafa a mais, corro um bom trecho, e a essa altura da prova sempre ando nas subidas. Em Caxambu velha anoitece e esfria, paro num boteco para comprar água e comer uns doces que levava. Uva passa, damasco, castanhas e bananinha. Pego uma estrada de terra bem plana, mas na escuridão total, só a luz da lanterna de cabeça e chego na rodoviária de Caxambu nova onde está o PC 6.

Entro na cidade de Caxambu às 8 da noite cansado e preocupado, preciso descansar, tento procurar uma pousada e nada. Durmo no chão perto da rodoviária por 2 horas, passo analgésico spray nas pernas, tomo uma dose de whey protein e apesar das dores consigo descansar num sono profundo.

Acordo travado e preocupado lá pelas 10 da noite, pois tenho uma caminhada de 28 km, uma pernada de 6 a 7 horas de madrugada pela estrada real com muita escuridão, sem lugar para abastecer com água e ninguém por perto.

Antes de sair rumo a São Lourenço tomo um termogênico para tirar o sono. Muito frio na estrada de terra, muitas pedras soltas e acabava chutando várias por causa do escuro. Pego a lanterna reserva na mochila, toda vez que parava pra descansar travava tudo por causa do frio, não podia ficar parado, andava, corria e parecia que não saía do lugar. Água acabando e ninguém por perto, começo a racionar a hidratação e do nada aparece o carro de apoio da prova…Viva!!! Graças a Deus, era a Monica e o Tio Chico.

Já havia percorrido uns 15km, depois que saí de Caxambu, já passava das 2 da madrugada, estava no km 170 e poucos. No carro de apoio pego um maçã, abasteço de água, troco as pilhas das lanternas e sigo bem mais tranqüilo.

Na entrada de São Lourenço, sinto as bolhas nos pés incomodando, paguei um preço alto pelas descidas rápidas e desnecessárias, elas me causaram bolhas na sola do pé.

Troco de meias, passo hipoglos, faço curativos e quase congelo de frio. Tenho dores e câimbras no abdômen, já era 4 da madrugada, atravesso a cidade inteira até o PC 7, no km 180 já com 44hs de prova.

Estava exausto, dores, frio, fome, tento arrumar abrigo e nada, a salvação foi o meu cobertor térmico, me embrulho nele e o frio passa rápido. A equipe do PC faz uma sopa vono, e descanso ali mesmo no chão, até as 6 da manhã.

Antes de sair fui até a padaria comprar dois pães de queijo e 4 polenguinhos. Tomo água de coco, abasteço de água, tomo os suplementos e sempre pequenos goles do soro.

Mancando muito saio da cidade rumo ao PC 8, bar da cachaça 24km à frente sem ninguém por perto e nada para comprar.

Estou preocupado já não consigo mais correr, só andar. As bolhas estão me metralhando, paro para tirar as meias encharcadas. Passo pomada e coloco os manguitos do antebraço nos pés. Nessa hora tento de tudo para não sentir as alfinetadas nos pés, mas nada melhora e começo a ficar preocupado com o tempo limite da prova de 60hs.

O sono bate forte e penso em deitar na beira da estrada de terra, desespero total, tomo uma dose cavalar de termogênico para não cair no sono. Tardou uns 30 minutos até bater o efeito que me tirou o sono na hora, mas também a fome, e isso é bem preocupante…

Perto do km 200 passa a equipe de apoio da prova com Paola e Newton. Viva, viva! Abasteço com água, não como nada e converso um pouco com eles. Faltavam 5 km para o PC 8 km 204, caminhando senti as bolhas estourarem e uma ardência queimando a sola do pé. 

PC no km 204.

PC 8, meio dia e 52hs de prova. A equipe de apoio o Tio Chico faz curativo nos meus pés, feito com absorventes e esparadrapos (foto acima). Calcei meias novas, que Monica arrumou pra mim… salvou!!!!

Almoço arroz, feijão, carne assada e macarrão, descontrai com o pessoal sempre me animando muito. Abasteço as garrafas com bastante água, um soro novo com meia garrafa de isotônico e o resto da solução.

Mais 31km até Passa Quatro, 9 km de plano, 8km subindo a serra e 14km descendo. Sai andando bem lentamente e mancando até sentir o efeito do curativo, passo a um ritmo rápido de caminhada e começo a trotar leve, não sinto mais as dores das bolhas, que maravilha!!!!

Na subida da última montanha, paro um pouco para descansar, tomo suplementos e como um pedaço de rapadura.

A subida foi  rápida, mantive um ritmo bom e animador até o topo. Agora faltam 14km de descida e 5 horas para esgotar o tempo limite da prova, já passava das 3 da tarde.

Km 231, caminhando sentido Passa Quatro.
Foto: Wagner Pnl

A cada passada na descida da serra meus pés gritavam de dor, meu ritmo diminuiu bastante e o vento fez a sensação térmica despencar. Quase escurecendo encontro outra equipe de apoio, abasteço com água, algumas fotos e só restam 3 km até a cidade e o pórtico de chegada. Sem pressa agora, tudo vai dar certo, cabeça no lugar.

Escurece e minha visão está cansada, pego a lanterna, desço pela trilha uns 2km e entro na cidade de Passa Quatro. Começo a pensar em tudo que passei no percurso e choro de alegria, agradeço a Deus por tudo.

Domingo dia 5, às 6 e meia da tarde completo os 235km em 58 horas e 30 minutos ….Viva viva viva!!!

Campeão por ter completado o desafio.
Foto: Wagner Pnl

Aprendi na ultra maratona dos anjos, que não importa a dificuldade que passamos, o importante é olhar para frente sempre, um passo de cada vez, sem olhar para trás, pensar sempre positivo, ignorar os problemas, ter humildade e respeitar a natureza e as montanhas.

 NO PAIN NO GAIN

Cleber Z. Evangelista

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